“Nossos filhos são espíritos” - Parte I

A educação dos filhos no mundo contemporâneo tem sido objeto de muitos estudos e reflexões, particularmente em função da era da comunicação globalizada, da redução da autoridade da família, da ampliação da liberdade social, dos desvarios do consumismo e do uso de drogas ilícitas, da falta de referências significativas no domínio ético e do sentimento de desencanto em relação à vida, para citar algumas das variáveis mais relevantes.
Em conseqüência, encontramos, cotidianamente, pais aflitos e indecisos quanto ao proceder, famílias desarvoradas e desintegradas nos seus elos afetivos, autoridades educacionais com discursos contraditórios e políticas públicas infanto-juvenis bem idealizadas, porém, na maioria das vezes, sem respaldo na experiência e na capacidade de execução.
A matriz do problema educacional dos filhos parece-nos estar na concepção de pessoa, de vida e de mundo, adotada pela civilização. Ela identifica, na vivência diária, a criatura como um ser para a morte no âmbito do humanismo materialista; ou uma criação divina candidata em sua maioria, ao fracasso espiritual, nos círculos dominantes de algumas religiões espiritualistas.
Ora, tais visões, no máximo, conseguem defender valores imediatistas, egóicos, centrados na sobrevivência corporal e nos prazeres sensoriais, no caso do materialismo, e sentimento de medo, frustração e fuga da realidade, no caso dos espiritualismos, que prometem o paraíso para poucos, e os estados infernais para a maioria.
Na primeira situação, o resultado previsível é a expansão do narcisismo, a ignorância sobre o valor do outro, a competição e suas conseqüências destrutivas, a busca da saciedade das carências a qualquer custo e os comportamentos sociopáticos.
Na segunda situação, caracteristicamente construída no modelo de pena e recompensa absolutas, pois as ações no tempo determinam a vivência na eternidade, a conseqüência natural é a existência de criaturas condicionadas pelo medo de desagradar ao Ser Onipotente, ou corrompidas pelo desejo de agradá-Lo, barganhando um estado de bem-aventuranças com atitudes exteriores e temporais. 
Em ambos os casos, situam o surgimento da pessoa no ato original da gestação. Este é o pecado original comum. Corpo somático como realidade única do ser, que surge pela conjugação de células sexuais e alma criada no instante da fecundação, como defendem, respectivamente, tais concepções de vida. Assim, colocam a gênese da pessoa em um determinado espaço-tempo, e restringem a vida a uma escassa presença no mundo físico ou, além disso, acrescentam uma vida contínua, mas imutável em suas características, após o decesso físico.
Ao nos conscientizarmos da natureza intrínseca do ser como expressão criativa de Deus, e a vida como manifestação existencial em contínuo transformismo evolutivo, através de várias formas corporais,  desvela-se um novo horizonte para a educação.
Descobrimos que nossos filhos são espíritos em processo dinâmico de individuação, na senda evolutiva que todos trilhamos, manifestando, na existência, os diferentes estágios de aproximação da plenitude, conforme as conquistas já alcançadas.
A primeira conseqüência desta percepção sobre a natureza essencial do ser é que podemos encarar qualquer criatura, como resultante de um ato divino e, por isso, somos universalmente iguais, enquanto origem e natureza essencial.
A segunda conseqüência desta visão da vida é que podemos constatar que estamos, existencialmente, diferentes em termos de consciência dessa nossa natureza essencial divina. Tal diferença é o reflexo da nossa competência em assumir nossa condição original, através de um processo evolutivo, que nos torna cada vez mais capazes de perceber a plenitude divina, que alcançaremos quando manifestarmos o que somos em sua totalidade.
A gênese do corpo é um ato relevante, conquanto não possa ser revestido da aura de momento único existencial, pois, muitos corpos animamos, muitas vidas vivemos e em muitos cenários atuamos, através da pluralidade palingenésica, sempre porém, como seres espirituais.
Nossa civilização continua a nos ver como seres humanos, genuinamente corporais, às vezes em busca de espiritualidade. Entendemos que esta é uma visão míope da nossa realidade, pois somos espíritos, realizando uma experiência humana como parte do seu trabalho fundamental: evoluir até desvelar, completamente, o segredo original de sua condição como imanência divina.
Quando estamos no mundo corporal, testamos nossa capacidade de manifestar, no mundo da impermanência, o quanto já conquistamos em termos de consciência do que somos. Assim, constituímos nosso estágio evolutivo que, por ser bastante diverso na humanidade, permite a variedade de condutas, valores e percepções.
As repercussões desta visão de pessoa e de vida na relação com os filhos permitem constituir um modelo educacional para a família, mais consistente e capaz de enfrentar os desafios contemporâneos.

André Luiz Peixinho
Diretor Presidente da FEEB

“Nossos filhos são espíritos”  -Parte II

  1. A consciência da transitoriedade da relação consangüínea como pais e filhos sob a óptica do espírito nos faz percebê-la como momento existencial relevante para o desenvolvimento do potencial do espírito na condição humana.                                                                                  
  2. O fenômeno da encarnação pode ser visto como uma grande oportunidade de exercício da descentração ou da alteridade, em suma, do amor ao próximo, particularmente pelas circunstâncias experimentadas pelo espírito submetido a este processo, o que torna sua presença no mundo, totalmente dependente dos seus cuidadores. Assim, a  presença infantil elicia no adulto, pela fragilidade física e suas necessidades, o sentimento amoroso, que por sua vez, se expressa através do cuidado contínuo, do respeito às demandas naturais, da responsabilidade e do conhecimento, características inerentes à expressividade amorosa.   
  3. A fase juvenil também é uma excelente oportunidade para desenvolvimento das relações afetivas, pois ela se caracteriza pela busca da própria identidade pelo ser reencarnado, apresentando nuances específicas decorrentes da progressiva capacidade de expressar sua real condição evolutiva. E as atitudes concernentes desafiam os adultos a se posicionarem frente a um estágio de consciência mais dinâmico, oscilando entre a dependência e a autonomia, interessado em reconhecer seus limites e possibilidades no âmbito social, num contexto cultural muitas vezes bastante modificado pela diferença de costumes das gerações. Isto exige uma maior habilidade na compreensão do outro, uma capacidade de renúncia ao seu poder e uma mais completa percepção do valor das condutas dialógicas.                                                  

O sucesso educacional na criação dos filhos, normalmente, estará caracterizado pela auto-realização dos mesmos, percebida como competências em se apresentar como cidadãos, usualmente organizadores  de novas sociedades familiares e, em decorrência, economicamente  autônomos.                                                                                                                
As relações entre pais e filhos, a partir desta fase, se transformam, pois ambos, já adultos, estão em momentos existenciais diferentes. Os primeiros percebem o começo do declínio físico da segunda metade da vida e os novos anseios muito personalizados sobre caminhos psicossociais de auto-realização, podendo até se desvencilhar da moral social e transcendê-la, ou simplesmente, viverem regressões à fase juvenil. Os filhos, por sua vez, estão no auge da busca de realização de seus sonhos socioculturais e financeiros e na defesa de sua prole. Estas diferenças, se bem percebidas, são outras tantas oportunidades de aprendizagem amorosa em função das vivências de cada papel social.                                                                                 
Na etapa final da vida física, num ciclo biológico normal, o papel de cuidador se inverte. Com a longevidade ampliada e o corpo debilitado, os pais se tornam os necessitados físicos e até mesmo psicológicos e espirituais. Assim, os filhos passam a ter responsabilidades não usuais, pois se percebem na inusitada situação de conduzir na vida, aqueles que durante muito tempo foram os guardiães do seu bem-estar. Esta convivência é sumamente relevante para o crescimento e qualificação da expressão amorosa. A fragilidade do idoso é inversa e complementar à da criança. Trata-se de uma perda de vitalidade e funções orgânicas em direção à morte física, mas, simultaneamente, um possível enriquecimento das vivências psíquicas, particularmente para aqueles que realizaram suas tarefas evolutivas e de desenvolvimento com adequação.
Podemos depreender de tais reflexões , que ao longo do tempo modificam-se as atitudes, as condições existenciais e  o contexto cultural, mas não se altera substancialmente a possibilidade do desabrochamento do potencial amoroso, fenômeno  essencial da dinâmica da evolução. Infância, juventude, maturidade e senectude possibilitam variações no modo de relacionar-se, porém, sempre conservam no seu âmago, condições de exercício da amorosidade.  
Tais variações são sumamente úteis na construção de uma convivência que se distancie do hábito da dominação, pois aprendemos a ver na diversidade dos papéis exercidos durante uma vida familiar, quão primária é a exigência de submissão. Exercitamos, assim, a competência de estarmos presentes na vida do outro com maior ou menor grau de diretividade, conforme a fase da relação, e tornamos possível experimentar o prazer da renúncia a padrões estereotipados em uma época, e a aprendizagem da admissão de novas vontades no sistema decisório consanguíneo.  
O cenário familiar, na perspectiva do espírito em evolução, é seguramente o ambiente apropriado para expressarmos, cada vez mais, plenamente, o amor ,que ao atingir o seu mais elevado grau de manifestação, deve engendrar atitudes de incondicionalidade, não obrigatoriedade de ações recíprocas e inclusividade. Assim percebida, a relação entre pais e filhos se constitui na experiência primacial de superação do egocentrismo, para a vivência da alteridade, na longa trajetória evolutiva, até ampliarmos nossa percepção amorosa, a ponto de envolvermos tudo e todos num reflexo do onipresente amor divino.


André Luiz Peixinho